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15 Set - 18 Out 2018

Croma

Ana Freitas

Curadoria André Sheik

Ana Freitas gosta de processos, que resultam, por vezes, em algo que se pode entrar em contato por meio dos sentidos. A meu ver, qualquer coisa apresentada como obra de arte é apenas um resquício da atividade de fazê-la. Até mesmo uma pintura. O fazer artístico é mais do que produção de objetos. Uma exposição é a exibição dos resultados de um processo. De certa maneira, fazer arte é expressar, por meio de uma linguagem, aquilo que se experimenta em sua ausência. Nas palavras da artista: “É como se o pensamento se apresentasse de forma visível.” Ao olharmos para uma de suas obras, da mesma maneira que vemos a sua exterioridade, expressão de seu pensamento plástico, é possível enxergar todo o percurso de transmutação ocorrido em sua execução. 

A exposição “Croma” apresenta trabalhos que são resultado de extensa pesquisa de cor e de materiais. Em exibição estão objetos planos que são pinturas, porém o suporte escolhido pela artista não é a tradicional tela, nem o papel. Ana Freitas utiliza placas de polietileno (de uso industrial), que ela lixa para conseguir a exata relação entre transparência e opacidade, o que acrescenta nova camada pictórica. Esse procedimento é necessário também para permitir que o material – originalmente liso – retenha adequadamente a tinta em sua superfície, regulando a saturação da cor.

Em grande parte dos trabalhos, Ana pinta nos dois lados do polietileno, assim, com a passagem da luz através desse material, as camadas de tinta mesclam-se visualmente, e não de modo físico, como seria caso os pigmentos estivessem combinados sobre um mesmo plano. É quase como se Ana subvertesse a distinção entre cor luz e cor pigmento. “São ‘transpinturas’: com materiais translúcidos, faço um jogo frente e verso de cores que não se misturam fisicamente, mas opticamente”, diz a artista..

Em alguns casos, ela constrói uma ilusão de tridimensionalidade, criando, na mente de quem as vê, uma sensação de profundidade, que quase não existe no plano físico, e que se dá, essencialmente, no “plano perceptivo”, como ela diz.

 

O resultado final é um conjunto de obras bastante palpáveis e visualmente instigantes, por desestabilizarem o olhar do espectador. São aparições visuais que desafiam a percepção e que igualmente provocam a vontade de tocá-las ou lambê-las. Ao mesmo tempo que, como diz Ana, são “cores de dentro”, ao virem para fora, nos penetram e nos alteram. 

André Sheik

obras da exposição

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