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17 setembro - 11 outubro de 2019

Dimensões de Paisagem

Amanda Mei e Laura Gorski

curadoria Sonia Salcedo Del Castillo

Amanda Mei e Laura Gorski exploram formulações (próprias) acerca da paisagem, por meio de estratégias poéticas que atuam no cruzamento entre imaginários: ficções e realidades. No diálogo entre suas produções, vislumbramos um campo de reinvenção do real que, especificamente, implica espaço-temporalidades afetivas, existenciais, em torno da ideia-paisagem.

Para além de elementos naturais, tal ideia embute reflexões acerca do ser no mundo. Não por acaso, em ambas as produções observamos um interesse em transitar entre-espaços-lugares-paisagens de modo a problematizá-los, imaginária ou ficcionalmente, ante seus vieses de instabilidade.

Quer sejam tomadas como história ou refúgio, diante de suas obras deparamo-nos com essa ideia-paisagem, sob a forma de fragmentos e sobreposições (quiçá, indícios) daquilo que nos escapa: tanto no que se refere à órbita da escala humana, quanto à esfera da apreensão de instantes frente à eternidade.

Segundo nossa fantasia poética, essas hipóteses acima mencionadas são bem-vindas, porque estão presentes nas investigações das duas artistas, enquanto inquietações inerentes à relação existente entre corpo e espaço de vivência e (diga-se) pertinente a todo o nosso processo civilizatório.

Se, à maneira de Mei, a pedra alicerça suas indagações; e do jeito de Gorski, questionamentos recaem sobre o horizonte, tudo isso se deve ao fato de tais objetos de pesquisa serem referências espaço-temporais de nossa existência no mundo. Antropomórfica e comparativamente: enquanto a rocha se coloca no limiar entre o mundo e o planeta, o horizonte avizinha-os, assegurando-nos

mútua convivialidade. 

Embora as raízes poéticas das duas artistas sejam distintas – uma vez que Mei parte da pintura e Gorsky, do desenho –, suas dessemelhanças findam por nos apontar afinidades.

Ao pensar a pintura fora de suportes convencionais, conceitualmente, Amanda Mei almeja refletir a respeito de certos desvios dos ciclos naturais que são impostos pela cadeia produtiva que envolve a vida socioeconômica recente. O papelão enquanto simulacro de superfície e estrutura de obras feito Meteoros, por exemplo, ratificam o fato de a artista tomar os materiais que utiliza como parte constituinte de sua produção. Como se, fantasiosamente, pudesse devolvê-los aos reinos dos quais foram retirados. Mas não apenas. À medida que dribla nossa percepção, confrontando permanência e efemeridade, põe-nos em pauta aquilo que parece ser seu principal objeto de pesquisa: o binômio tempo/espaço. É dessa maneira, pois, que a pedra torna-se marco e momento, ao mesmo tempo... que obras como Aeolis nos lança ao encontro de lugares imaginados (feito aos quadrantes de Marte e suas pedras rolantes); ou Encontro Marcado nos inclui num momento para o qual tudo converge, visto que numa explosão nada há de ulterior, nem mesmo o tempo (passado, presente ou futuro). Qual estilhaço do Big Bang, eis a pedra novamente para nos dizer da criação... e não menos, de reinvenção, como na híbrida série Planetas, em que além da pintura, a colagem somada à gravura nos falam do desejo de dotar o vestígio ou rastro de densidade.

Feito quem movimenta pedras em um jardim japonês, Mei é atenta para o momento de ser e estar no mundo. Entre o Yin e o Yang, legado de suas ori-

gens orientais, além de uma paleta alusiva ao descuido humano com a atmosfera terrestre (na qual o cinza predomina), a artista prioriza a sabedoria das formas simples e fundamentais, em detrimento de aparatos tecnológicos que muitas vezes desprezam a relação homem/natureza. Esse é o princípio de Nébula Bipolar: intervenção direta no espaço arquitetônico que esboça estruturas rochosas. 

 

Laura Gorski, por sua vez, tem por razão naquela relação homem/natureza o horizonte: linha estruturante à perspectiva espaço-temporal de sua narrativa-paisagem, para a qual tudo converge, feito fuga ou refúgio íntimo. Trata-se, pois, de uma linha de repouso para o olhar que, em si, guia a imaginação à ideia-paisagem e, de maneira análoga ao desenho, pede uma admiração contida, uma contemplação nada apressada. Vejam, no embate do corpo com a paisagem, um olhar distanciado é convocado. Então, se a escala-paisagem reduz sua presença, o horizonte torna-se uma forma de autoconhecimento para a artista. 

Ao olhar para fora visando ver dentro, Laura simplifica as formas utilizadas em seu desenho, segundo redução de seus elementos, para encontrar um sentir-paisagem enquanto lugar de silêncio e contemplação.

Embora Nível contenha essa linha-mestra que desenha não apenas o horizonte, como também a compreensão do conjunto das obras de Gorsky em diálogo poético com a produção de Mei, por exemplo, certa inquietação íntima da artista, aquela da ordem do corpo e de alma que nos referimos acima, gradativamente subverte a direção daquela linha conferindo-lhe sentido, de modo a se incluir na sua ideia-paisagem. 

 

Essa vontade poética “subversiva” manifesta-se inicialmente em Fronteiras de Tempo, obra em que o pensamento-fragmento dá lugar ao de sobreposição. Nela, Laura estica verticalmente as páginas de um livro sobre a formação de paisagens abismais, como falésias. Ao inverter a horizontalidade da visão, o livro aberto faz uma panorâmica de estreitamento do olhar. 

Tal estreitamento advém de uma experiência vivida pela artista na Floresta Amazônica, dada a verticalidade arbórea e a consequente impossibilidade de se vislumbrar o horizonte. Laura, então, se mistura à paisagem. Seu próprio corpo passa a ser o horizonte, à maneira da impactante imagem de Ser Paisagem na qual, indissociavelmente, artista e obra resultam num fim em si. Um ponto de suavidade e nobreza a tatuar a terra. Feito valor de filigrana que sacraliza sua própria projeção meditativa. 

É a partir desse raciocínio que seu desenho depura qualquer informação que não seja concêntrica, como exemplifica o díptico, Ponto de Convergência. Nele, em lugar do corpo-horizonte, há um ponto de nanquim dourado sobre pigmento terroso e celeste. Porém, cuias d’água montadas em círculo sobre o chão reafirmam aquela linha-mestra na relação corpo/terra. Marcam um nível análogo ao repouso ou descanso, desenhando uma paisagem de intimidade.

O conjunto de obras de Amanda Mei e Laura Gorski nos apresenta dimensões da paisagem, a partir da ideia de que o corpo é parte de uma relação ulterior à perspectiva focada na paisagem vivenciada. Mas sobretudo, naquela inventada que guardamos em nosso íntimo, feito espécie de memória ou espaço-tempo imaginado. 

obras da exposição

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