8 Jun - 20 Jul 2018

Estilhaços de flores / Jardins de vidraças

individual de Alexandre Baltazar

Com pincéis finos e traços aparentemente despretensiosos, Alexandre Baltazar cria uma codificação híbrida entre pintura e desenho. Suas composições de nanquim sobre papel, sempre em preto e branco, dão espaço aos elementos banais e inquietantes do dia a dia. Estes elementos aparecem justapostos a palavras ou frases (que soam como poesia, mas têm etimologia e efeito subversivos) revelando a atitude esmiuçadora do artista sobre as situações do cotidiano. Ele é, antes de tudo, um atento observador do seu tempo.  

Como ele mesmo diz, sua mente visita todo dia, incansavelmente, lugares e situações que todos nós conhecemos, mas não botamos reparo. Ao emoldurar imagens ordinárias da vida urbana contemporânea, Baltazar nos obriga a reparar na sociedade adoecida que construímos e nos nossos relacionamentos. Suas incursões diárias ora visitam lugares áridos, espinhosos e desconfortáveis, ora lugares doces e ensolarados. Mas Baltazar não é prosaico. Ele é um crítico. E nos provoca o tempo todo. 

É essa aposta constante no desconcerto que torna suas obras tão atraentes. Exemplo dessa idiossincrasia é a série “Estilhaços de flores / Jardins de vidraças”, que dá título à exposição. Com o isolamento de objetos cotidianos e a inclusão das frases datilografadas, as obras nos desafiam não só do ponto de vista formal, mas também do narrativo. Elas se revelam exatamente no contraponto entre poema e crítica social, entre política e sentimento, entre banal e absurdo, entre amor e protesto. O mesmo se observa nos dípticos “Parede com olhos” e “Não-verdades”.

Uma apreciação renovada pela relação entre arte e vida cotidiana faz de sua pintura a expressão do completo tédio com relação à estética como a conhecemos. Há uma economia expressiva nas obras que questiona o próprio fazer artístico: assume a característica autorreferencial da arte contemporânea para, ao mesmo tempo, questioná-la. É como se o artista operasse num plano suspenso onde arte, comunicação, filosofia (e um certo gosto pela ironia) se cruzam.

Dois trabalhos são icônicos neste sentido: “Cópia de mim mesmo” e o inusitado “Mature woman worried about the future isolated on white background”. Como ready-made bidimensionais, eles condensam os tópicos do deslocamento de contexto (que transforma o objeto cotidiano em objeto artístico), o questionamento sobre a legitimidade da figura do artista e o (mal) estar na contemporaneidade. 

Considero “Mature woman” um trabalho “inusitado”, porque é o único que traz a figura da mulher, nos direcionando para a posição incômoda e reflexiva que é estar no mundo. Há também uma ironia que sobrepõe a tradição da pintura de retrato, com seus fundamentos de personificação e memória, e a generalização impessoal do banco de imagens na internet. Da contextualização histórica para a descontextualização contemporânea.

Contudo, é importante destacar que essa análise crítica é motivação e não objetivo de Baltazar. Ele deixa claro que o questionamento da arte é reflexo do questionamento sobre a vida, nossos desejos e valores. É evidente que o artista está interessado na multiplicidade de leituras possíveis: pode ser uma história de amor sem final ou um manifesto sobre a urgência de uma transformação político-cultural. Não importa: ele quer (ainda que de maneira inconsciente) gerar envolvimento. Por isso, impregna com enorme sentimento tudo que pinta - embora este seja um sentimento muito mais provocador e ambíguo do que reconfortante.

Em regra, ele procura criar situações que nos são familiares. E, se em um primeiro momento elas nos fazem sorrir, no instante seguinte, nos atingem como pedradas. Todo mundo, em alguma medida, sente e sabe que há aspectos da existência contemporânea que são inaceitáveis. Mas parece que ninguém faz nada a respeito. Baltazar é uma das poucas exceções. Ele interroga: “você está vendo isso, né?”. A pedra bate e quebra nosso teto de vidro. 

Curadoria Ludimilla Fonseca

obras da exposição

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