13 outubro - 10 dezembro 2020

Uma ideia de paisagem

exposição coletiva

ArtRio Viewing Room 2020

curadoria André Sheik

Artistas participantes: Amanda Mei; Ana Freiras; Ana Takenaka; Isis Gasparini; Laura Gorski; Marcelo Pacheco; Thomaz Rosa; Virgílio Neto; Yasmin Guimarães

Uma ideia de Paisagem

 

Paisagem é aquilo que se alcança com a vista. Igualmente, um gênero de pintura. Entre tantas outras acepções (uma das belezas do idioma reside aí, o que também é uma armadilha). Um trabalho de arte também pode ter numerosas leituras, diria até, interpretações. Uma exposição, na minha concepção, não é para ilustrar uma ideia; ela é uma ideia em si. Mas, o que
é uma ideia? Sem querer ficar como o cachorro que corre atrás do próprio rabo, no título desta mostra, uma ideia é um pensamento informe.

Quando nomeamos algo, a propensão é a experiência se interromper. Interesso-me por limites fluidos, borrados: quanto do gesto do artista é necessário para tornar o assunto do trabalho reconhecível e o quanto isso é ou não necessário (digamos assim). Todavia, tendemos a rotular, classificar ou até mesmo encontrar formas conhecidas em tudo (fenômeno chamado pareidolia), e o mesmo pode-se dar no contato com um trabalho de arte.
A experiência de vida daquele que frui da arte determina a relação que estabelecerá com a obra.

Em uma ideia de paisagem, estão reunidos artistas com interesses múltiplos e distintos, que utilizam variadas técnicas, como pintura, fotografia, desenho, gravura, colagem. Na exposição, há uma ideia de paisagem que não se pretende definitiva, nem única. Uma ideia que foi desenvolvida a partir do meu olhar sobre os trabalhos disponíveis dos artistas do elenco da galeria Quadra. A concepção de paisagem nos trabalhos selecionados não
é estrita. Desse modo, temos obras que explicitamente apresentam uma paisagem, e outras cujos artistas possivelmente nem pensaram em paisagem quando as conceberam. Entre um extremo e outro, imagens no limiar da representação, insinuações visuais. Faz parte do “jogo” da arte subverter
os códigos e expandir o vocabulário.

Artistas têm-se dedicado a transpor para um suporte, de diversas formas e maneiras, suas apreensões da Natureza, ou do que está ao alcance de suas vistas. Porém não se deve crer que esse processo seja uma representação fiel da realidade, daquilo que se vê, nem mesmo na fotografia, técnica que utiliza equipamento cujo aparato óptico é distinto do dos olhos humanos.
A pintura de paisagem, por exemplo, nem sempre foi feita ao ar livre (o que só se tornou corriqueiro no século XIX). Todo trabalho de arte se assemelha a uma transliteração, uma espécie de tradução, leitura ou interpretação, dizer próprio do artista, transposição de uma ideia para a obra, que atinge (ou não) o espectador, que com ela estabelecerá uma relação singular, ainda que seja de desprezo ou de indiferença.

Assim sendo, a sua ideia de paisagem, até onde a vista alcança, irá se juntar à minha (que já não é mais a dos artistas), expandindo-a. Ou dela se afastará. Vamos nos sentar e conversar (usando máscara de proteção), aí tento lhe explicar o inexplicável em palavras. Ou veja a exposição e me diga qual é a sua ideia de paisagem a partir da minha ideia de paisagem, apresentada por meio das obras dos artistas aqui presentes e que com elas toma forma.

Perdoe-me pela tautologia, mas uma ideia de paisagem é uma ideia de paisagem. 

André Sheik

Outubro de 2020

obras da exposição

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